Por que tudo começa pela cultura?
- Maria Helena Rabelo
- 17 de mai. de 2021
- 3 min de leitura

"Escola de Atenas", Rafael Sanzio, 1509-1510
Tem se falado bastante entre os meios conservadores do país sobre a importância da “guerra cultural”. Contudo não há uma definição muito clara de qual seria o seu significado. Alguns pensam que seria atuar na alta cultura, enquanto outros o confundem com militância de rua e ocupação de espaços nos meios político e jornalístico. Porém, guerra cultural ou ação cultural, como eu gosto de chamar, é simplesmente fazer obras artísticas que transmitem a visão de mundo de algum grupo, seja esse ideológico, religioso e afins.
Outro questionamento é quanto a sua eficácia. Não seria perda de tempo atuar na cultura enquanto poderíamos já promover mudanças políticas e sociais? Para responder a isso vamos primeiro pensar na própria natureza da mente humana. Em seu livro “Aristóteles em Nova Perspectiva” o filósofo Olavo de Carvalho diz que: “Para Aristóteles, o conhecimento começa pelos dados dos sentidos. Estes são transferidos à memória, imaginação ou fantasia (...), que os agrupa em imagens (...) segundo suas semelhanças. É sobre os dados dos sentidos, que a inteligência exerce a triagem e reorganização com base nas quais criará os esquemas eidéticos, ou conceitos abstratos das espécies, com os quais poderá enfim construir os juízos e raciocínios.” P. 35. Para exemplificar, pensemos em um cachorro. Primeiro, vemos um cachorro, depois guardamos essa imagem na memória e reconhecemos isoladamente suas características (tem quatro patas, rabo, late etc.). Com isso nós podemos olhar para outros animais e identificar semelhas e diferenças. Por exemplo, gatos, elefantes e pombos não são cachorros; um Yorkshire e um São Bernardo são cachorros apesar de serem muito diferentes à primeira vista.
Entendida essa teoria do conhecimento, vamos à teoria dos quatro discursos. Ela relaciona os quatro discursos aristotélicos (poético, retórico, dialético e científico) e os coloca em uma unidade com gradação de credibilidade que leva à verdade. Todo discurso humano tem a intenção de provocar uma mudança no ouvinte, ou espectador, e cada um intencionará uma mudança diferente, contudo a mudança desejada pelo discurso de credibilidade maior, precisará daquela feita por um de credibilidade menor. Pois isso a uma relação de ordem necessária entre eles é esta que estará listada a seguir:
· O discurso poético (obras de ficção em geral, como livros narrativos, filmes e HQs) abre a imaginação do público para algo possível, ou seja, a formação de crenças e impressões.
· O retórico (propaganda, debate político, julgamentos e afins) tenta persuadir o público a tomar uma decisão com base nessas crenças já estabelecidas e sua credibilidade é verossímil.
· Já o dialético (debate acadêmico e investigação científica) faz uma triagem dessas crenças com base em critérios rígidos que buscam o provável, diferente do retórico que se baseia na vontade do público.
· O analítico ou científico já é uma demonstração de uma verdade com base em premissas já analisadas e admitidas como verdadeiras de antemão.
Ora, mas o que isso tem a ver com a guerra cultural? O Prof. Olavo diz que essa teoria está intrinsecamente ligada com a cultura: “se o indivíduo humano não chega ao conhecimento racional sem passar pela fantasia e pela simples apreensão, como poderia a coletividade – seja a polis ou o círculo menor dos estudiosos – chegar á certeza científica sem o concurso preliminar e sucessivo da imaginação poética, da vontade organizadora que se expressa na retórica e da triagem dialética empreendida pela discussão filosófica?” P. 35. Ou seja, nenhuma ideia é admitida como “verdade” – seja pelo senso comum ou pelo “consenso científico” – sem antes passar pelo imaginário popular, através de obras de ficção, pelo debate retórico ou propaganda e sem também passar pela discussão dialética. Vale ressaltar que nem sempre essas ideais admitidas como “verdade” de fato o são, mas esse assunto ficará para outro artigo.
Por fim, esse entendimento de que se pode pular a guerra cultural e partir direto para a briga política e acadêmica está totalmente errado, pois não adianta eleger políticos e demonstrar logicamente que seus argumentos estão mais corretos que de seus adversários se o povo, no geral, não tem uma compreensão das suas ideias. Por compreensão, quero dizer, não apenas, um entendimento de pautas políticas e intelectuais que algum grupo defende, mas de um modo de pensar, quer dizer, uma visão de mundo. Em uma visão de mundo está contido o conjunto de possibilidades que um indivíduo é capaz de imaginar. Como ninguém pode fazer nada que antes não possa pensar – tente você fazer algo que mal consiga pensar – e como demonstrado anteriormente, o pensamento é um estágio posterior ao da imaginação e levando em conta que o discurso poético é responsável pela mudança do imaginário, então conclui-se que para mudar a compreensão de um povo – e por consequência suas crenças, posições, ações etc. – é necessário primordialmente trabalhar na cultura de ficção.
Referência:
Carvalho, Olavo de, Aristóteles em Nova Perspectiva: Introdução à Teoria dos Quatro Discursos, Campinas, SP, VIDE Editorial, 2ª Edição, 2013.

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